Vida Seca relembra a história do Césio 137 através do projeto “Rua 57, nº60 – Intercâmbio e Difusão”

Goiânia já foi o palco do maior acidente radiológico do mundo. Há 29 anos, em 13 de setembro de 1987, apenas 19g de cloreto de Césio 137 foram suficientes para causar um grande transtorno na cidade.

Para muitas pessoas o acidente ficou apagado da memória, mas para o Vida Seca não. Com o objetivo de dialogar sobre o assunto, convida professores da rede pública de ensino a vivenciar e trocar saberes com pesquisadores da área no projeto “Rua 57, nº60 – Intercâmbio e Difusão”. 

A programação é dividida em duas fases, a primeira é Intercâmbio e aconteceu nos dias 13 e 14 de setembro, no Espaço Sonhus. A ideia foi explorar o tema a partir de uma palestra, uma mostra de vídeos e uma oficina musical.

Intercâmbio

“Até hoje me perguntam se eu brilho de noite”. A piadinha, que de engraçada não tem nada, saiu da fala de Sueli Lina de Moraes, vítima e presidente da Associação de Vítimas do Césio 137. Toda piada tem um fundo de medo, ignorância e, principalmente, falta de informação. Foram essas as questões levantadas na palestra “Césio 137 – 29 anos”, que abriu a programação “Rua 57, nº 60 – Intercâmbio e Difusão”, projeto cultural organizado pelo Vida Seca. 

Rua 57, N 60 - Intercâmbio e Difusão

A data não podia ser mais oportuna. No dia 13 de setembro completou-se exatamente 29 anos que foi deflagrada a cápsula com 19 gramas de Césio 137 no centro da capital goiana. Por isso, para abrir a programação do projeto, Sueli Lina e Júlio de Oliveira, professor e pesquisador do tema, foram convidados para expor sobre suas experiências na área.

Só porque se passaram quase 30 anos do ocorrido, não significa que devemos deixar que ele se isole no passado da memória da cidade. As consequências e sua gravidade são visíveis até hoje, como no caso das vítimas que, com maior ou menor grau de contaminação, lutam na justiça por seus direitos e enfrentam sérios problemas de saúde em decorrência do acidente. “A maioria das pessoas que trabalharam com a gente (com os contaminados) estão com câncer. De policiais, a bombeiros, infelizmente a maioria”, comenta Sueli Lina.

A estudante de arquitetura e urbanismo, Bruna Moreno, comenta que foi na palestra que teve um contato mais profundo sobre os efeitos do acidente em Goiânia e considera que entender o que foi esta parte da história é um fator crucial para enxergar a cidade nos dias de hoje. “Me dei conta de que é o maior acidente radiológico do mundo e talvez ninguém saiba, nem quem mora aqui. São pessoas que passam pelo centro todos os dias, que vão a eventos no Centro de Convenções [área onde funcionava o Instituto de Radiologia de Goiânia], que nem sabem que existiu o acidente. Para mim não faz sentido”.

Mas o que não faz sentido nenhum, para a professora Maria Cecília Abdalla é o depósito do Césio 137, localizado em Abadia de Goiás, município a 22 km de Goiânia. Lá estão enterradas toneladas de lixo radioativo, causando desconfiança por parte de moradores. “Em momento algum, fomos consultados a respeito da colocação do depósito em Abadia de Goiás [...] Nós não sabemos se aquele depósito é seguro ou não”.

A desinformação é recorrente na história que envolve o acidente com o Césio 137. O governo falhou em políticas públicas, dando brechas para que uma onda de medo se alastrasse em Goiânia. Os mais prejudicados, sãos os cidadãos e as vítimas que sentem o preconceito na pele até hoje. “Eu fico assustada porque não teve política de conscientização. Não teve e não tem informação até hoje”, comenta a estudante Bruna Moreno.

A falta de políticas públicas informativas e de conscientização levou o Vida Seca a trabalhar o assunto por meio da arte. Por ser uma forma de expressão muito rica, o grupo tem como objetivo levar o assunto adiante de forma mais envolvente e musicada. Assim, a primeira etapa do “Rua 57, nº60 – Intercâmbio e Difusão” se encerra com uma fala do professor Júlio de Oliveira. “A importância desse projeto é total. Exatamente por ser uma forma muito própria de, hoje, trazermos à tona essa questão. Não só para os jovens, mas para a sociedade como um todo”.

Porém, ficou a pergunta. O que podemos fazer 30 anos depois do acidente? A resposta é simples. Não deixar que ele se esqueça na memória. Este é um fenômeno que ainda vai se projetar no futuro. Trazer à tona todas as informações e estudos já feitos é fundamental para que possamos conhecer nossa própria história e lutar por um futuro com mais qualidade de vida.

 

Thamara Fagury

.coordenação de comunicação na Ma1sUm.